sexta-feira, 3 de março de 2017

Meu Canal no Youtube

Pra quem ainda não viu, tenho um canal no youtube onde posto meus próprios vídeos. Há desde pregações a discursos particulares sobre filosofia, teologia e história. Parte das minhas atividades no blog foram dirigidas para lá. Outra se dirigiu à publicação estritamente científica. No entanto, ainda vou manter o blog para quando eu quiser postar algum artigo que não caberá no youtube ou num artigo científico (ao menos não por agora). Quanto à frequência, não farei compromisso algum... posto quando der e quando tiver algo interessante que não vi sendo dito noutro lugar! hahaha
Então é isso! Eis o link para o meu canal:

https://www.youtube.com/channel/UCUkmyMAFN7C5FuekktRjOHg

Inscrevam-se. :)

terça-feira, 12 de abril de 2016

O Blog volta em breve...

Muitas ocupações fizeram-me ter que me ausentar das atividades por aqui. Entretanto, não foi de todo ruim pois tenho muitas leituras feitas desde a última postagem e muitas ideias interessantes para postar. Posteriormente transformarei os ensaios em artigos, aperfeiçoando-os e submetendo-os a revistas especializadas. Portanto, em breve retornaremos com postagens.

sábado, 31 de outubro de 2015

Diálogos Sobre a Religião - Ateu e Reformado debatem moral e doutrina da salvação

O seguinte diálogo é inspirado em várias conversas que tivemos ou debates que vimos. Não se dirige a nenhum de nossos amigos e colegas ateus em particular, mas aos que têm esses argumentos e que, inclusive, já usaram contra nós. Foram vários. Então, não se sinta, caso você se lembre de termos conversado algumas partes desse diálogo, como se estivesse recebendo uma indireta. As mesmas coisas foram conversadas com outras pessoas.
Outra ressalva importante é explicar a preferência por ‘REFORMADO’ ao invés de cristão’. Na verdade não pretendemos fazer grandes explicações aqui, pois já a começamos noutro artigo[1]. Em suma, estamos usando o termo na presunção de que a fé reformada é a autêntica e mais exata representação da fé bíblica. Mas é claro que os argumentos – a maioria, pelo menos, senão todos – aqui esboçados poderia ser usado por outros seguimentos cristãos.



Numa situação qualquer em que um bom cristão, de confissão reformada, se encontra com um amigo ateu e, por qualquer motivo que levaria a uma discussão sobre religião - e eles existem aos montes - começa-se a seguinte discussão:

ATEU - Sabe, meu amigo, há algo que realmente me incomoda nos religiosos...
REFORMADO - Puxa, eu não responderia pelos 'religiosos', mas, tudo bem, diga-me o que é...
ATEU - Eles se acham melhores do que as demais pessoas por serem religiosas, mas na verdade o fato de serem religiosas as fazem, na verdade, piores...
REFORMADO - Como assim? Refere-te a questões históricas?
ATEU - Não, não! Bom, o que eu quero dizer é que, eu, como ateu, sou melhor do que vocês quando faço algo de bom.
REFORMADO - Sério? Como assim?
ATEU - Quando vocês fazem algo de bom o fazem porque querem ir para o céu. Com todo respeito, mas isso é ser mercenário. Nós, ateus, fazemos o bem porque isso é o certo.
REFORMADO - Mas se alguém não quiser fazer o certo ele é mau?
ATEU - Certamente.
REFORMADO - Sob qual critério?
ATEU - oras, ele não estará fazendo o certo.
REFORMADO - E quem falou que ele deve fazer?
ATEU - Mas o que é isso? Está pensando como se fosse um ateu!
REFORMADO - Estou pensando como um ateu mesmo, para mostrar que sua visão de mundo não comporta essas suas afirmações.
ATEU - Então, quer dizer que só quem é crente pode ser bom?
REFORMADO - Bom, 'ser bom' é um conceito difícil. É claro que você pode fazer algo bom. Ninguém duvida disso. Ainda assim teríamos que investigar suas intenções...
ATEU - Justamente! As intenções é que estão em questão...
REFORMADO - Por que alguém deveria fazer o que é certo?
ATEU - Oras, há várias teorias para isso. Gosto bastante daquelas que dizem que devemos fazer o bem para transformar o mundo num lugar melhor...
REFORMADO - Então, no final, é para você mesmo se beneficiar?
ATEU - Não, não. Fazemos porque queremos fazer o bem.
REFORMADO - E se alguém não quiser?
ATEU - Ela estará se prejudicando.
REFORMADO - Sempre?
ATEU - Acho que sim.
REFORMADO - Parece que você está flertando com a ideia de contrato-social, não?
ATEU - Bom, em certa medida, sim, é uma boa justificativa para a ação moral. É racional. Mas esse não é o ponto. Eu faço o bem porque quero e não por qualquer outro interesse.
REFORMADO - Justamente, não é o ponto. O ponto é que vocês não poderiam dizer que alguém que é poderoso o suficiente para ficar impune e que consiga sobreviver por seus poderes tenha que se submeter às regras da sociedade.
ATEU - Claro que tem!
REFORMADO - Por quê?
ATEU - Bom... Ele ficará bem consigo mesmo...
REFORMADO - Então é, novamente, de egoísmo que te acuso.
ATEU - Tudo bem, que seja, qual o problema disso?
REFORMADO - Ser egoísta não é ser mau?
ATEU - Com quais fundamentos afirma isso? Acho que não há problemas ser egoísta...
REFORMADO - Assim como o poderoso impune não vê problemas em fazer as coisas terríveis que faz... A questão é justamente essa. Você move-se sem padrão algum.
ATEU - Movo-me sob o padrão da utilidade!
REFORMADO - E como impedirá o poderoso? 

ATEU - Quer dizer, então, que é correto fazer o bem só para ir para o céu? Ou deixar de fazer o que é mau para não ir para o inferno?
REFORMADO - Bom, em certo sentido, não há problema algum em perseguir o céu...
ATEU - Como não?!
REFORMADO - Pois veja. Existem recompensas naturais e legítimas para um ato, ao passo que existem as contingentes e ilegítimas...
ATEU - Certo.
REFORMADO - Enriquecer-se não é uma recompensa para o amor e se alguém se casa com alguém para enriquecer-se a consideraríamos um mercenário.
ATEU - Sem dúvidas!
REFORMADO - Mas o casamento não é uma recompensa merecida para o amor?
ATEU - Bom, sim... mas...
REFORMADO - Percebo que tal argumento não pareceu convencê-lo, não é mesmo?
ATEU - Não... Bom, veja, é um bom argumento... mas...
REFORMADO - Permita-me completar o raciocínio.
ATEU - Vá em frente.
REFORMADO - Atenta-te para isso. Acreditamos que dentre os anseios e desejos do nosso coração, de nossa alma, está aquele de contemplação da mais pura beleza e do mais sumo bem: Deus. Fomos feitos para adorá-lo. Quando nos convertemos passamos a mirá-lo no horizonte de nossa jornada...
ATEU - Mas o que isso tem que ver com fazer o bem para ir para o céu?
REFORMADO - Aí é que está a grande questão! A fé bíblica é um pouco diferente daquilo que você deve ter ouvido como cristianismo...
ATEU - Como assim?
REFORMADO - Há uma resposta bíblica que muda a perspectiva sobre esse assunto. Paulo, por exemplo, ensina claramente que não iremos para o céu por sermos bonzinhos...
ATEU - Então não importa o que façamos, iremos para o céu?
REFORMADO - Não é isso que estou falando.
ATEU - Ah, então te interrompi. Agora acho que as coisas estão ficando ruins para você... Vou deixar que se enforque. Continue.
REFORMADO - Veremos... Prossigamos. Eu dizia que não é o fato de sermos bonzinhos justamente pelo fato de não podermos ser bonzinhos o suficiente para ir finalmente ser salvo da Ira final de Deus.
ATEU - Ira de Deus? Que conceito antiquado!
REFORMADO - Bom, vamos discutir esse conceito. Mas você não pode continuar me interrompendo, pois levanta uma infinidade de questões às quais não terminei de responder.
ATEU - É que parece que está enrolando...
REFORMADO - Oras, mas de onde tirou que as respostas têm que ser tão rápidas assim?
ATEU- Tudo bem, vá lá, estou tumultuando. Prossiga. É que esse papo de Bíblia me dá náuseas...
REFORMADO - Eu sei que dá. Também tenho imenso desgosto com vários de teus posicionamentos. Mas isso não me impede de discutir contigo, não é mesmo?
ATEU - Mas a maioria dos crentes não é assim...
REFORMADO - Pior para eles. E, por favor, é melhor me identificar como um cristão reformado do que com um 'mero crente', pois o termo já está bem desgastado por essas terras...
ATEU - Como assim?
REFORMADO - Esqueça! Depois conversaremos sobre isso. Por enquanto fiquemos com o assunto soteriológico.
ATEU - 'Soterio' o que?
REFORMADO - Sobre a doutrina bíblica da salvação.
ATEU - Perfeitamente. Siga adiante.
REFORMADO - Bom, eu dizia que não podemos ser bons o suficiente para ir para o céu. Vamos colocar como 'ir para o céu', embora esse conceito também tenha que ser trabalhado.
ATEU - Tudo bem. É o suficiente. Mas, o que quer dizer com 'ser bom o suficiente'? Quanto é o suficiente?
REFORMADO - Ser perfeito.
ATEU - Oras, mas isso é impossível! Deus não poderia exigir uma coisa dessas... isso o torna mau!
REFORMADO - Pelo contrário, meu caro, se ele não exigir algo nesse nível é que ele seria mau. Aliás, isso já irá abarcar aquele assunto sobre a Ira de Deus que falávamos...
ATEU - Meu amigo, isso está muito estranho. Como é que um ser que se Ira e que exige que sejamos perfeitos pode ser bom?
REFORMADO - Verás que concordas comigo. Um ser que é absolutamente bom, justo e santo poderia permitir que o mal fique impune?
ATEU - Como assim? Ele não é misericordioso? Ser misericordioso[2] não é um dos frutos do seu amor, como vocês pregam?
REFORMADO - É mais uma das confusões que vocês fazem, rejeitando um espantalho ao invés da fé cristã.
ATEU - Pois, então, por obséquio, esclareça-me essa questão.
REFORMADO - Com enorme prazer! É bem verdade que Deus é amor e isso o torna misericordioso. Mas para exercer essa misericórdia ele não pode ir contra seus demais atributos. Ele não pode ser mau para ser misericordioso.
ATEU - Hum... acho que começo a compreender. Mas como ele pode ser misericordioso?
REFORMADO - Bom, firmemos, primeiro, que ele é Todo-Bom, correto?
ATEU - Certo. Esse é, pelo menos, o conceito cristão a respeito de Deus.
REFORMADO - Que seja. Acreditamos que toda injustiça e mal cometidos impunemente durante a história da humanidade será, finalmente, julgado no dia do Juízo Final. E lá, pois, Deus não poderá deixar-nos impunes por nossos erros.
ATEU - Tudo bem, vamos ver até onde esse raciocínio dá. Mas já parece estar me enrolando nesse papo de teólogo...
REFORMADO - Ha-ha-ha! Ok, mas vou continuar no papo de teólogo...
ATEU - Siga.
REFORMADO - Bom, uma vez que não podemos, pois, ser bons o suficiente, procuramos uma justiça que não vem de nós. É aí que entra nossa gratidão por Jesus Cristo.
ATEU - Ei! Está me evangelizando?! Queres que eu me torne cristão?
REFORMADO - Oxalá se você se torna-se cristão! É meu desejo declarado desde sempre. Mas, agora, estou expondo minha fé que, em termos filosóficos, é uma exposição da minha cosmovisão no campo da ética e no 'teleológico'.
ATEU - Tudo bem, ouvirei mais um pouco porque você é um cara legal e estudado. No meio de toda essa bobeira deve ter algum conceito interessante...
REFORMADO - ... Bom, vamos lá. Cristo. Ele vai para a cruz para antecipar as punições que teríamos que pagar no Juízo Final, que são, na verdade, altas demais!
ATEU - Hum... certo. Mas aí eu tenho outro problema. Então alguém que é um crápula durante toda a sua vida pode, no final, se arrepender e ir para o céu?
REFORMADO - Sim, mas...
ATEU - Isso é injusto! Deus estaria sendo mau até mesmo sob teus padrões, amigo! Onde está sua ira? O que esse 'malandro-aposentado' perdeu?
REFORMADO - Aí é que está, meu bom amigo! Você não está olhando para o todo. Para começo de conversa, esse homem terá uma grande dor em sua alma pelo que fez. Mesmo que saiba estar perdoado por Deus, sofrerá com as dores na alma pelo resto de sua vida, até que renasça e todas as lágrimas sejam enxugadas.
ATEU - Isso não basta!
REFORMADO - Não mesmo. Você está coberto de razão. É preciso um castigo severo para os seus crimes. Certamente muito mais severo do que nós, com nossas percepções morais míopes, podemos conceber.
ATEU - Claro! Mas, espere, aonde quer chegar? Purgatório?
REFORMADO - Não, não. É certo que não. Essa não é uma doutrina bíblica...
ATEU - Ah, verdade, você não é católico, não é...
REFORMADO - Isso. Reformado. Não se lembra?
ATEU - Ok, mas, e então? Deve esse homem fazer coisas boas para pagar pelas más?
REFORMADO - Que ele deve fazer coisas boas isso não há dúvidas. Que ele deve tentar reparar os erros que cometeu, também não discordo. Mas que as coisas boas cobrem as ruins não há qualquer fundamento bíblico.
ATEU - Não?
REFORMADO - Não. O mau demanda punição e o bem recompensas. Mas a recompensa do bem não é a retirada da punição. Esse conceito é estranho à ontologia moral bíblica. E, instintivamente sabemos disso!
ATEU - Interessante... Mas, o elucide esse 'instintivamente' para mim. Não estou certo de que concordo com isso.
REFORMADO - Bom, embora nosso senso moral possa estar embotado em grande medida, nas faltas mais graves conseguimos perceber com maior clareza o que estou dizendo. Se alguém estuprasse tua mãe, irmã, esposa ou filha você ficaria indignado. Algo muito ruim foi feito. Você sabe que isso demanda punição. Se o estuprador tornar-se um monge não irá satisfazer tua demanda por justiça...
ATEU - É verdade... Mas, então, não estou te entendendo! Esse cara pode ser salvo ou não?
REFORMADO - O que eu disse que foge da sua perspectiva é que há uma punição infinitamente mais severa do que poderíamos imaginar: o próprio Deus resolve encarnar-se, tornar-se homem para sofrer pelos homens.
ATEU - Então o flagelo divino recai sobre Cristo?
REFORMADO - Justamente. E, não, não é um mero flagelo, mas toda a Ira final de Deus contra o pecado! É algo terrível. Muito pior quando consideramos a natureza de quem padece do furor divino: Cristo, o homem-Deus, totalmente santo e justo.
ATEU - Mas não foi injusto que alguém tão bom assim sofresse as injustiças dos outros?
REFORMADO - Certamente seria injusto se ele fosse obrigado a fazer isso. Mas ele voluntariamente resolveu sofrer por nós.
ATEU - Ok, caro amigo reformado. Isso parece fazer sentido. Mas e quanto à questão inicial?
REFORMADO - Bem lembrado! Bom, como eu falava, nós, os autênticos cristãos, definidos assim segundo a própria Bíblia, não fazemos o bem para ir para o céu. Nós já temos por garantido o céu. Nós fazemos o que é certo justamente por sermos cidadãos celestes por antecipação...
ATEU - Como assim? Como é que têm essa certeza? 
REFORMADO - É preciso crer em Cristo...
ATEU - Como assim? É só dizer que se acredita e fim? É como um passe órfico para ser dito no dia do Juízo Final?
REFORMADO - Não mesmo, meu amigo. Jesus disse que naquele dia alguns iriam regozijar-se na sua vinda, mas ele lhes dirá: eu não conheço vocês!
ATEU - Uau! Que pesado...
REFORMADO - Certamente, terrível! Mas na mesma passagem em que isso é dito se diz que Jesus os rejeitará porque, embora o tenham como salvador, não o têm, de fato, como 'Senhor'. Isto é, eles se submetem a Cristo enquanto aquele que os livrará da ira vindoura. Mas não o reconhecem como Senhor e Deus.
ATEU - Então é preciso acreditar que ele é Salvador, Senhor e Deus?
REFORMADO - Basicamente sim.
ATEU - Ok, se eu disser que acredito nisso, então estou garantido?
REFORMADO - Não, não. Isso é uma confissão do fundo do coração.
ATEU - Que, no caso, só Deus vê... Então um crápula, um facínora, pode, no fundo, acreditar nisso...
REFORMADO - Não, cara, você está entendendo errado, mais uma vez...
ATEU - Oras, o que me falta entender?
REFORMADO - Bom, na verdade falta-te muita coisa no que diz respeito à fé cristã, mas para nossos propósitos é importante que compreenda a dinâmica da fé.
ATEU - Ok, termina de explicar isso que tenho que ir.
REFORMADO - Pois bem, fechemos, pois, nisso.
ATEU - Não que tenhas me convencido a tornar-me um cristão. Só está me explicando melhor teu ponto de vista...
REFORMADO - Bom, é uma pena que não, mas, seja como for, exponho-te o que não é meu, mas do próprio Deus conforme ele revelou.
ATEU - Segundo tu crês...
REFORMADO - Pois bem, terminemos... ou então levantaremos outra discussão!
ATEU - Ha-ha-ha. É verdade. Termina-me de explicar, então, como a Bíblia resolve essa questão.
REFORMADO - Pois bem, crer em Cristo significa acreditar em tudo que as Escrituras dizem sobre ele. Isso implica em acreditar na dignidade de sua pessoa, na nossa culpabilidade, e no grande favor feito por Deus na Cruz. Não é possível observar a tudo isso de forma apática. Quem não tiver sua consciência afetada por isso é por não acreditar que Jesus e realmente Deus, e que na cruz ele padeceu infinita dor que cabia a nós por nossos erros. Só aí já se demanda, a partir da crença, um tipo de atitude diferente.
ATEU - Então quem acredita no Jesus da Bíblia...
REFORMADO - Que é o Jesus da História!
ATEU - Tudo bem, mas eu usei 'da Bíblia' para diferenciar dos conceitos errados que as pessoas têm sobre Jesus, conforme você disse.
REFORMADO - Ah, perfeito! Ótimo, perdão. Continue.
ATEU - Bom, então, como eu estava falando, quem acreditar nesse Jesus também terá acreditado que seus erros são tão maus que fizeram com que Jesus tenha morrido.
REFORMADO - Perfeitamente! Mas, como se isso não bastasse, e o pecado (o erro moral) seja um ultraje ao sacrifício de Cristo, reconhece-se, com a divindade de Cristo, que ele é, portanto, Senhor. Isso quer dizer que devemos lhe obedecer se de fato acreditamos em Jesus. E não só isso, como acreditar que sua vontade é boa, perfeita e agradável mesmo quando não a compreendemos como possuindo esses atributos, de modo a sempre buscar obedecê-lo.
ATEU - Bom, então se alguém diz que acredita em Jesus Cristo, mas não tem uma vida correta, então não é cristão coisíssima nenhuma!
REFORMADO - Exatamente.
ATEU - Então muitos cristãos não irão para o céu.
REFORMADO - É o que o próprio Cristo disse copiosamente.
ATEU - Bom, mas isso me faz pensar numa série de outras questões... infelizmente não há mais tempo para mim. Vou seguindo adiante. Foi bom conversar com você! Qualquer dia voltaremos para esses assuntos de teologia e Bíblia. São até interessantes. Quem me dera se todos os cristãos pensassem como você...
REFORMADO - Vá lá, meu amigo. Até a próxima.

 PS: As duas imagens no decorrer do texto foram tiradas do facebook da ATEA, para mostrar que são ataques reais feitos à fé cristã, e não coisas da cabeça do autor do diálogo.


[1] Referimos-nos a este artigo: Afinal, quem REALMENTE são os evangélicos?
[2] Para ampliar a discussão sobre esse ponto, veja: Prolegômena à Predestinação: uma questão de justiça

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Como Ser Mau Para a Esquerda - o caso de Mauro Iasi

As coisas estão muito malucas mesmo! Ou não estamos entendendo nada, ou o nível de hipocrisia da esquerda brasileira beira à insanidade. Um pequeno artigo teve de ser rabiscado às pressas para registrar o que facilmente seria descrido se contássemos sem as devidas provas. Do que estamos falando? Do escândalo das palavras de ódio e ameaça do professor Mauro Iasi, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Para quem não viu o vídeo, ei-lo:



Aquilo que sempre tem sido dito pelos conservadores e liberais está aí, escancarado (como se precisássemos de mais provas)*¹. Como outrora dito por Reinaldo de Azevedo, a diferença dos crimes cometidos em favor de uma política liberal e os crimes da esquerda se diferem nalgo singular: uma iniciativa particular gerou aqueles, ao passo que estes são uma categoria de pensamento. Ou seja, na filosofia de muitos grupos de esquerda a eliminação daquele que discorda está dentro do script!

Mas aí alguém pensaria: não, isso é um exagero pois, afinal, foi um caso isolado e certamente a todos manifestariam uma nota de repúdio às escabrosas declarações. Não, não é isso que acontece. Ele não só recebe apoio*² como, em tal ato, acusam as pessoas de fazerem exatamente o que o dito cujo propôs fazer: violência. É o cúmulo da hipocrisia!
O quadro é esse: ele diz aberta e publicamente que com conservadores não deve haver diálogo, mas luta. Se formos bonzinhos teremos um bom paredão, uma bela bala e uma bela cova (o que será que acontecerá se formos um inimigo político declarado?). Então alguns conservadores, ameaçados, resolvem revidar. Alguns, dizem, ameaçaram Iasi. Parece que até ameaçaram-no de... morte. Mas, oras, não é justamente o que ele propôs para esses mesmos que o ameaçam de morte? Isso foi
tolerância? Só há intolerância, claro, quando se ameaça de morte alguém da esquerda que te ameaçou de morte. Se você ameaçar algum 'miserável reacionário' estará lutando pela democracia e guiando a sociedade para um patamar de justiça 'nunca antes visto nesse país'. É com essa política maravilhosa que vimos o grande progresso da humanidade nos paredões cubanos, na União Soviética, na Alemanhã... mas, espere, fascismo não pode ser contado. É coisa 'de direita'. Promove o fim da liberdade, que é um dos valores mais caros ao conservador e ao liberal, mas mesmo assim, é coisa de direita.

E falando em liberdade, a ANDES tem a cara de pau de falar que são a favor da liberdade de expressão e do livre transitar de ideias*³. Mas quem quer que alguma atitude seja tomada contra um criminoso que incita à violência está propondo, na mente maluca dessa estirpe, algum tipo de opressão. Liberdade de expressão não quer dizer que podemos falar o que bem entendermos. Não podemos difamar alguém de forma gratuita. Espalhar mentiras - principalmente danosas à moral de alguém - pode ser punido criminalmente. Se alguém faz ameaças públicas, então, é evidente que está ferindo outros princípios, paralelamente sustentados, na democracia, com a liberdade de expressão. A liberdade é cerceada - já diziam nossos pais - pela liberdade do outro. Mas, na cabeça desses patifes algo como o 'direito de ir e vir' seria interpretado como o direito - deles (e não nós! Jamais!) - de entrarem em nossas propriedades quando bem entendessem. Aliás, diriam, 'que propriedades?'...

Com a famosa tática de acusar no outro o que se faz, sem nem enrubescer o rosto, temos um exemplo óbvio de que as coisas estão indo de mal a pior. A estratégia é nítida, clara: diga, caro militante esquerdista, que fazemos o que você fez, faz e/ou fará e tornar-se-á invisível para executar seus planos. E isso não é ser mau. O que é 'ser mau' para a esquerda é igualmente fácil definir: basta não ser de esquerda.


_____________

* Goste você ou não do Olavo, eis uma lista de citações espantosas que ele transcreve num de seus artigos (que pode ser lido aqui). Isso para não falar do que Pondé sempre tem apontado e subjaz ao discurso de Iasi, a saber, o monopólio da virtude ostentado pela Esquerda. O conservador diz-se ser, apesar de conservador, uma boa pessoa... Mas como assim? Mais uma vez o imaginário canhoto descamba em delírios de virtude que, dado o atual estado patente de suas mentes de psicopata beira à patologia registrada com o nome de megalomania, afinal, se um bando de assassinos se julgam a vanguarda da moralidade e do bem, que outra loucura poderíamos identificar?
* Veja a nota de apoio ao professor Iasi pela ANDES -SN aqui e aqui.
* Fora a velha ladainha de que ser conservador é apoiar o regime militar ou que o regime militar sequestrou e matou milhares de brasileiros, jovens que lutavam pela liberdade, pessoas de bem... e não bandidos, em cifras muitíssimo menores, que não tinham qualquer intenção democrática.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Sobre os Dons - Conheça a Perspectiva Reformada sobre o Tema



Este é mais um artigo de recomendações. Vou listar aqui alguns bons vídeos de reformados sensatos falando sobre o que pensamos sobre os dons espirituais e a obra do Espirito Santo no que diz respeito à condução do trabalho eclesiástico. Isso me poupará o trabalho de correr, todas as vezes, à mesma lista de vídeos todas as vezes que tenho que indicar algo para um amigo e irmão que me pede tal tipo de esclarecimento. Alguma coisinha já fora exposta, outrora, no debate com o Júlio Severo, que colocamos aqui (veja que são três partes).

Primeiro, uma série do Reverendo Heber Jr.:

Dons Espirituais - Introdução
Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4

Em seguida, vejam algumas exposições do Reverendo Leandro Lima:

Os Dons do Espírito (Parte 1)
Os Dons do Espírito (Parte 2)
O que a Bíblia diz sobre Dom de Línguas (Hangout)
O que a Bíblia diz sobre Dom de Cura (Hangout)

Temos também um doutor em Antigo Testamento falando sobre os dons do Espírito no Antigo Testamento. Falo do Reverendo Daniel Santos:

Manifestações do Espírito no Antigo Testamento
O Espírito Santo Concedendo Dons no Antigo Testamento

O seminário presbiteriano Ji-Paraná tem vídeos a esse respeito também:

Línguas Deformadas - Rev. Ewerton Tokashiki
Cessacionismo - Rev. Alessandro Santarelli
Provando os Espíritos - Rev. Zilmar Hotti
A Insensatez dos Profetas Falíveis - Rev. Wagner Nogueira
A Verdadeira Obra do Espírito Santo - Rev. Joares Morais
Falsas Curas, Falsas Esperanças - Rev. Evanderson Cunha
Apóstolos Entre Nós - Rev. Luciano M. Amorim

Finalmente, dentre os brasileiros, o atual vice-presidente da Ipb, Reverendo Augustus Nicodemus:

O Batismo com o Espírito Santo (Parte 1)
O Batismo com o Espírito Santo (Parte 2)
O que o Espírito Santo fazia antes do Pentecostes?
Exposição em 1 Coríntios 14
O que é Profecia? Existe Hoje?
Pentecostes: ontem e hoje

Agora, o famigerado congresso Fogo Estranho, onde figuras reformadas famosas fizeram exposições úteis para o interessado no assunto:

Provando os Espíritos - John MacArthur Jr.
As críticas de Calino aos calvinistas pentecostais - Steve Lawson
Cessacionismo - Tom Pennington
Depreciando o Pentecostes - R. C. Sproul
Uma Cura Mais Profunda - Joni Tada

Com tudo isso, qualquer interessado terá um material robusto para entender como os reformados encaram a questão, apesar das diferenças acidentais entre os vários pensadores apresentados.




quinta-feira, 9 de julho de 2015

Prolegômena à Predestinação - uma questão de justiça




"Ora, a excelência, beleza e perfeição de cada ser vivo, objeto inanimado ou ação humana depende exclusivamente da utilidade para que o destinou a natureza ou o artífice" (Platão, Livro X da República).

Prolegômena é aquilo que se discute antecipadamente. É a discussão que deve ser feita - mas geralmente não o é - antes de entrarmos em outros pontos. Supostamente há pontos pacíficos quando se vai discutir vários temas. Acreditamos que aquele com quem estamos a debater assume algumas coisas que nós de antemão achamos óbvias demais para serem discutidas. No entanto, um levantamento de pressupostos que regem as colocações demonstrará que, não raro, há pontos de discordância que impediriam completamente os contendores de chegarem a um acordo.
Com esse pequeno texto, pretendemos explorar alguns itens prolegomenais em relação à discussão sobre a predestinação, eleição e afins, contidos nas doutrinas da graça* conforme expõem os teólogos protestantes reformados - os quais nos parecem mais próximos das Escrituras. Particularmente, estamos interessados em considerar o conceito de justiça que é trazido à baila nessas discussões de forma, amiúde, desorganizada e confusa. Basicamente, questiona-se se seria justo que Deus elegesse algumas pessoas para serem salvas e outras não. Nossa tese é de que é perfeitamente justo que Deus faça tal escolha.

Foi Voltaire quem observou que para discutirmos adequadamente temos que definir os nossos termos, o que já consiste, por si, em uma tarefa prolegomenal. Isso é uma forma de evitar a falácia da equivocação, que consiste em discutir com conotações distintas para um mesmo termo. É marca distinta de um bom pensador e de uma boa discussão que as coisas fiquem de antemão claras. Ao acompanharmos as discussões socráticas veremos da parte do sábio ateniense justamente o desejo de definições precisas para evitar confusão - o que, com frequência, colocava o próprio adversário em confusão, pois esse fora para a discussão sem pensar muito bem nas palavras que usava.
Queremos entender, pois, o que significa 'justiça'. Esse é o termo-chave da discussão. Acreditamos que podemos defini-la como algo nos seguintes termos: 'é ter cada um o que lhe é de direito', ou, 'cada um ter o que é adequadamente seu'. Quem já leu a República sabe como é difícil uma definição precisa, embora 'intuitivamente' arranhemos o conceito. Supomos suficiente definir tal como o fizemos.

A questão que se segue é a de saber o que é devido a cada um, ou seja, o que é de direito. O direito de algo ou alguém é determinado por seu valor ontológico, i. é., o valor intrínseco que a coisa tem segundo seu próprio ser. Entretanto, há algo assim? Valor intrínseco?
O valor de um determinado artefato criado por um homem está determinado por ele ao criar e estabelecer seu objetivo. E mesmo as coisas que ele não cria ganham seu valor segundo os fins para os quais ele percebe. Um homem pode considerar um violão extremamente valoroso na medida em que aprecia a música e, principalmente, aquela produzida pelo violão. Mas um cão ou gato não terá o mesmo apreço pelo instrumento, principalmente se não houver quem o toque - se é que animais podem verdadeiramente apreciar uma música. No máximo, servir-lhes-á para depositar alguma coisa, ou para afiar suas unhas. Portanto, percebemos que o valor das coisas é determinado de forma subjetiva. É preciso um referencial para que haja a determinação do valor.
Pois bem, temos que decidir de antemão se nosso referencial será antropocêntrico ou teocêntrico. Se tomarmos o homem como a medida de todas as coisas, teremos uma avaliação valorativa, e se tomarmos Deus, outra.
Estamos percebendo a que rumo o argumento está levando? Quem é que determina o valor do homem? Se ele é determinado pelo próprio homem, temos uma situação distinta daquela em que Deus é quem o determina. Esse é o ponto nevrálgico. Podemos falar que todas as coisas têm valor segundo o estabelece a subjetividade humana. Mas não seríamos indelicados se perguntássemos sobre o valor do próprio homem. É engraçado ver como naturalistas 'rebolam' para tentar dar algum valor distinto para um conjunto determinado de átomos dispostos de uma forma específica e não de outra. O homem não é mais do que isso nesse tipo de cosmovisão. E o valor que ele dá às coisas é relativo. E daí se as coisas têm esses valores para o homem?
Sem o homem poderíamos pensar no valor das coisas para manter o ecossistema. Mas, e daí? Por que o ecossistema deveria ser mantido? Alguém poderia responder imediatamente que seria para manter a vida na terra. Mas por que manter a vida? Ela nem mesmo é compreendida de forma 'anímica' pelo naturalista. Uma cosmovisão naturalista não pode dar um significado essencial para a realidade. Um cristão que toma o homem como referência para o valor das coisas é um incoerente que anda de mãos dadas com naturalistas. Um protestante, então, nesse caminho, chama para banquetear consigo Pelágio, João Cassiano e toda a corja que se segue.

Agora podemos rumar para a situação oposta. Deus determinando o valor das coisas. Para começar, ele está numa situação singular e muito superior à do homem para determinar o valor das coisas. Antes de mais nada, na cosmovisão cristã, ele é quem cria 'ex nihilo' tudo o que há. Cada parte do que existe além dele é engendrado, formulado, cogitado e executado por seu desejo. Portanto, o valor das coisas é definido segundo os objetivos que Deus tem para com tudo. Aí está o valor absoluto das coisas. Elas têm valor intrínseco por conta de seu lugar na criação.
Segue-se que é de direito que Deus dê ao homem o que lhe é cabível segundo o valor que Deus deu na execução de seus planos para cada coisa. Se o valor das coisas é dado por Deus, cabe a Ele dar a cada um o que bem entender segundo lhe parecer viável.

Não podemos encerrar esse artigo sem uma última formulação. Um ser racional age, na medida em que age racional e inteligentemente, com fins. Ele tem planos. Julgamos a integridade de seus planos e a competência do logos em executar seus planos. Um homem ao fazer algo tem, consciente ou inconscientemente, planos. Na medida em que ele conhece mais a si mesmo, mais consciente de seus objetivos ele está. Na medida em que é mais sábio e bom, objetivos mais nobres e sensatos ele tem, bem como os meios para alcançá-los. Apliquemos o raciocínio a Deus e teremos alguém que age com fins plenamente conscientes e estabelecidos, totalmente nobres e sensatos. Portanto, quando Deus criou cada coisa, inclusive cada homem, tinha uma pauta, um objetivo em mente.
E qual objetivo é esse? Com Charles Hodge aprendemos o que viria a ver novamente em John Piper: que Deus não pode ter outro objetivo que não ele mesmo como alvo final, último, derradeiro para as coisas. Quando ele vai criar só pode haver um objetivo sumamente nobre, santo e justo que é enaltecer aquilo que é mais santo, belo, nobre e bom: ele mesmo. Ele age, pois, em consonância com o que Paulo diz na epístola aos Romanos, para a sua glória, pois 'por ele, para ele e por meio dele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!'.
Na mesma epístola, no nono capítulo, o apóstolo Paulo diz que Deus criou os eleitos para enaltecer sua misericórdia e os ímpios para enaltecer sua santidade, justiça e severidade para com o mal, o que implica ser extremamente bom. Paul Helm, certa feita, notou que se fosse injusto que Deus não salvasse alguns homens, então salvá-los seria questão de dívida, e não de misericórdia. Deus os salva segundo seu propósito final de glorificar a si mesmo em suas várias perfeições.

Portanto, é mais do que justo, nobre e santo que Deus eleja quantos ele quiser para a sua inteira glória, bem como pretira, igualmente, a quantos lhe aprouver. Este é o soberano Deus para quem nos dobramos em reverente adoração!

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* Notar que não iremos discutir as demais doutrinas da graça que são indissociáveis da eleição, como justificação objetiva e subjetiva, chamado externo, regeneração, santificação, adoção, ressurreição e glorificação.


segunda-feira, 8 de junho de 2015

Afinal, quem REALMENTE são "os evangélicos"?



Alguns estimados amigos e irmãos apreciaram um texto com a graça "Afinal, quem são 'os evangélicos'?", do jornalista Ricardo Alexandre. O título é interessante e, para todo bom cristão, há um desejo muito grande de verem-se apartados, inclusive no 'imaginário popular', de vários charlatões e reconhecidos malfeitores que se valem da religião para promoverem seus interesses e a tornam deplorável para o olhar do mais vil secularizado hedonista. Assustou-nos o fato de o texto estar na Carta Capital, nada afeiçoada à confissão cristã. A junção desses elementos despertou-nos à leitura. Escrita agradável e bem desenvolvida ['muito distante das que se veem nos textos deste humilde escritor que vos fala', destacariam alguns que inclusive vieram nos falar pessoalmente a respeito da
nossa dificuldade de expressão segundo seus respectivos pontos de vista], trouxe lá sua contribuição. Ele pareceu-nos querer atacar, principalmente, a 'generalização' [leia o artigo aqui].
Ok, de fato, a generalização apressada é algo reconhecidamente imprudente. Entretanto, é preciso tomar cuidado para não abrir a definição a ponto dela deixar de ser isso mesmo que pretendia ser: uma definição*¹.O tio Ari poderá nos ajudar (e falamos do bom Ari, ou seja, aquele macedônio, estagirita, da Grécia Antiga, filósofo reconhecido; e não um velho nada douto e sapiente que arroga autoridade de teólogo nos nossos dias ou de um tal boca suja que também intitula-se 'pastor'...)*².
Quando queremos definir algo temos que, primeiro, identificar um gênero (no sentido de 'classe', 'grupo maior') a qual determinado objeto de investigação se encaixa e depois distingui-lo das demais espécies. Façamos o exercício.
'Evangélico', para começo de conversa, é uma religião, e, como tal, acredita em alguma força maior e nalguma relação do home para com tal ser superior. Não é, pois, ateísmo, agnosticismo ou deísmo. Também não é uma ideia política, embora possa implicar em política; não é o nome de uma família ou de uma empresa, embora algumas igrejas têm famílias que parecem comandá-las como se lhes pertencessem, e outras parecem, de fato, empresas... Esse é o primeiro gênero que devemos salientar: é uma religião. Óbvio de ser dito, mas, a título de completude, necessário.
Em seguida, temos que nos lembrar de que há uma pretensão pelos ditos evangélicos de serem seguidores de Cristo, i. é., cristãos. Portanto, supõe-se algum vínculo com a figura histórica de Jesus. Portanto, não é de tradição oriental, embora algumas práticas cheirem a práticas orientais, como, por exemplo, a confissão positiva. Não é de linha muçulmana. Não é budismo. Não é de linha ocultista, mística, tal como as religiões de origem africana, embora algumas que se dizem 'evangélicas' tenham mais elementos dessas religiões do que elementos tradicionalmente cristãos. É, em maior ou menor medida, uma religião vinculada à pessoa de Jesus.
Mas não é qualquer Jesus. Os muçulmanos falam de Jesus como um profeta e nada mais do que isso. Há quem o veja como um grande mestre moral, e tão somente isso. Há ainda aqueles que o encararão como um espírito perfeito, que, meio que por emulação, nos levará à prática do bem. Concepções cada vez mais distantes. Remontando uma tradição 'moderna' (no sentido estrito do termo, i. é., algo pouco depois do Renascimento, ou ali 'encostada'), intitulada de Reforma Protestante - que por sua vez reivindica associação à um movimento mais antigo ainda, i. é., a fé da Igreja Primitiva - a qual reclamava fidelidade última às Escrituras Sagradas, 'evangélicos' seriam aqueles que pautam sua fé sobre Cristo tão somente naquilo que diz a Bíblia sobre ele. Esse é, ao menos em teoria, o discurso. Na prática, sabemos que não é bem assim e, bom, eis um critério para vermos se de fato estamos diante de um evangélico: é sua fé sobre Cristo tal como ensinada na Bíblia? Caso não seja, esse subgênero já teria de excluí-lo daqueles que reivindicam ser evangélicos.
Uma religião cristã fundamentada tão somente nas Escrituras. Se não quisermos nos delongar até às
controvérsias fundamentalistas do início do século XX, e entender quando é, exatamente, que o termo 'evangélico' surge, essa definição que inicia o parágrafo é mais do que suficiente para que façamos a peneira. Se perdermos esse parâmetro para dizer que 'evangélico É tudo', teremos a correta conclusão de que o termo é, o mesmo tempo, 'nada'. E, de fato, quando usamos de 'universais', estamos a alegar que tal expressão nos traga à mente algum conceito. Se o conceito diz respeito a tudo e a nada, não é um conceito, e a palavra torna-se menos significativa do que um arroto ou a emissão de uma flatulência, que ainda comunicam a existência de alguma vida (ou, a depender do odor, algo próximo à morte...) dentro do indivíduo.
É interessante, da parte do autor do artigo, demonstrar que o termo já não evoca mais nenhum conceito. Nesse sentido, ele está corretíssimo. Quando se perde o universal como um gênero que inclui todas as caraterística supracitadas, ele passa a não significar nada, e a incluir no seu conjunto cada vez mais elementos distintos, até que não se possa mais classificar qualquer coisa com aquele termo. É por isso, aliás, que muitos preferem se intitular de forma alternativa, como 'reformados', e.g., ao invés de 'evangélicos', para não serem confundidos com algo que está muito longe de ter algum parentesco com o que acreditam.
Mas não podemos, por conta da confusão gerada pelo termo, abrir mão de qualquer definição precisa que o termo costumava denotar. E nisso o autor peca. É um texto na 'Carta Capital', como já observamos, e, claro, era de se esperar que viesse eivado de vaidade politicamente correta. Sem uma definição, e salientando os vários tipos de pensamentos divergentes no seio da igreja cristã, deu a entender que se pode nomear cristão de forma legítima com as mais variadas crenças e práticas, pois haverá 'uma igreja para você'. Se há alguma intenção boa aí, há também um péssimo conselho. E, para isso, é interessante versarmos também sobre a questão das diferenças de pensamento.
Bons teólogos, sensatos, piedosos e notáveis acadêmicos distintamente cristãos protestantes notaram que há um 'mínimo divisor comum' entre os movimentos verdadeiramente cristãos. Embora haja uma disputa grande a respeito de quais são todos os elementos inegociáveis, há pontos pacíficos, tais como a criação da parte de Deus, i. é., que Deus é o criador do mundo e de tudo que nele há; a perfeição ontológica de Deus (como bom, santo, sábio, justo, todo poderoso, todo conhecedor, presente em todos os lugares e assim por diante). Trindade (incluindo a divindade de Cristo e pessoalidade do Espírito Santo); os méritos da nossa salvação como pertencentes a Cristo por pagar, na Cruz, a pena que cabia ao homem; a ressurreição literal de Cristo e sua segunda vinda visível. Isso é ser cristão bíblico. Há diferenças em várias questões periféricas, mas nenhuma dessas crenças podem ser omitidas ou serem contraditas por alguma outra crença nova. Feito isso, temos que considerar que tal 'particular' está fora do conjunto que poderíamos chamar de 'evangélicos', conforme definimos acima. Em poucas palavras, entre as igrejas e denominações que a partir da própria Bíblia poderíamos considerar cristãs há mais pontos de convergência do que pontos de divergência. E é nesse espírito que se unem para adorar a Deus juntos. Até aí temos 'ecumenismo'. Fora dessas paredes estaremos falando de sincretismo.
Se não fizermos essa distinção, corremos o risco de sermos precipitados, descuidados e tolos. Poderíamos tomar como 'evangélico' aquilo que não é, tal como chamar de pintura tudo e qualquer coisa que alguém fizer diante de uma tela. Se não estabelecermos parâmetros, perderemos as condições para dizer o que é uma produção artística, e o que é apenas uma bagunça diante de um tale em branco, embora para o leigo - há de se confessar - pareça tudo a mesma coisa.
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*¹ Para uma melhor compreensão do texto, sugerimos a leitura a partir do subtema 'Os Cânones da
Lógica', que se encontra no seguinte artigo: Introdução à Lógica Aristotélica
*² Para quem realmente não pegou a piada, estamos falando de Aristóteles.